As armas e o futuro das nossas crianças, até quando andarão juntas?
Agora há noite estava assistindo a um daqueles seriados policiais americanos, e naquele episódio o assunto abordado eram as crianças-soldado de Uganda, a forma como são recrutadas, e o impacto que isso causa no desenvolvimento e na vida deles. Na ficção, conseguem prender e julgar um dos generais desses exércitos. Um dos "recrutas" do programa, já adulto, contava a forma como fora aliciado, as promessas que faziam, de que as armas os fariam sentir poderosos, que poderiam fazer o que quisessem com uma arma nas mãos, que seriam invencíveis. Contou também o que ouvia quando dormia, os gritos das pessoas que ele fizera sofrer desde a infância.
Isso me chamou a atenção e me fez pensar. Sempre vemos e ouvimos histórias desse tipo em países da África, países pobres, do outro lado do oceano, e ficamos perplexos, mas ao mesmo tempo pensamos que o problema está longe, que nada podemos fazer, e que por isso o problema não é nosso. Esquecemos que vivemos a mesma situação hoje no Brasil, embaixo do nosso nariz, nas periferias das grandes cidades, nas cidades menores, e até mesmo do nosso lado. Simplesmente fechamos os olhos, fazemos de tudo para não ver. Assim temos uma falsa sensação de segurança, de que nada está acontecendo, e não irá nos atingir.
Tenho um filho pequeno, e isso é para mim um estímulo a mais para tentar achar uma solução para este problema. A principal solução, sem sombra de dúvidas, é a educação, mas aí paramos em uma série de barreiras que atrapalham a evolução. Primeiro, como podemos convencer nossos governantes de que vale muito mais investir em educação - mesmo que leve muito tempo para surtir efeito e não trará resultados que rendam votos na próxima eleição, mas gera um efeito muito mais duradouro e o tornará um herói nacional - ao invés de investir em obras facilmente apresentáveis, que dão uma meia dúzia de votos nas eleições seguintes, e permitem que continuem no poder fazendo o que bem entendem e lucrem muito com isso? E outra, como convencer nossas crianças a estudar, se os pais muitas vezes não estudaram, os jogadores de futebol que são idolatrados, ou as dançarinas que ficam rebolando na TV e cantando músicas sem ritmo ou uma letra que contém apenas palavrões e erros gramaticais ganham muito mais do que qualquer profissional formado, ou ainda se somos governados por um presidente que nem ao menos terminou o ensino fundamental, e se vangloria disso, fazendo de sua ignorância um troféu?
Tudo isso me faz temer pelo futuro do meu filho, e de toda uma geração que está vindo por aí. Perco o sono tentando imaginar como será quando ele tiver seus 15 anos, se poderei dormir tranquilo sabendo que segui o caminho certo na sua educação ou se terei de passar as noites em claro, temendo que ele seja vítima ou agente desses exércitos mirins que se alastram por toda parte.