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21out/091

Primeira modalidade olímpica confirmada para 2016: Tiro ao Alvo

Na realidade, pensei em escrever tiro ao pato, mas acho que soaria mal. O problema é que o que vem ocorrendo no Rio de Janeiro - cidade-sede dos jogos olímpicos de 2016 - é exatamente isso, a polícia está na posição de patos e os traficantes de caçadores. Sempre defendi a tese de que o Brasil vive um clima de constante tensão civil, com conflitos localizados e esporádicos. Nas grandes cidades, os conflitos são constantes, mas em muitos casos ocorrem fora do centro, nas periferias, não despertam o interesse da mídia e acabam não sendo percebidos por grande parte da população.

Infelizmente, no Rio, a situação é bem diferente. Sua geografia composta por uma faixa estreita de planície, margeada pelo oceano e cercada por uma cadeia de montanhas, fez com que a periferia fosse de encontro ao centro, e os constantes conflitos passaram a ser problemas de todos, independentemente de onde estejam. Há muito digo que a situação estava fora de controle, com os bandidos tomando o lugar que deveria ser da polícia, e aplicando suas próprias leis. Mas não imaginava que chegaria a ver o que ocorreu na última semana: traficantes derrubando um helicóptero da polícia em um confronto. Isso é coisa que só se ouve falar em guerras, e se vê em filmes. No momento em que foi noticiado, tive plena certeza de que a cidade passa por uma guerra civil. A situação fugiu do controle já há alguns anos, com as milícias exercendo as funções de polícia, os traficantes agindo como o Estado, "escrevendo" e fazendo cumprir suas próprias leis, gerando sua própria economia com o comércio paralelo (drogas, armas, gás, tv a cabo, etc.), e o pior de tudo, ganhando a simpatia da população. Não é raro vermos cenas de revolta contra a polícia, mesmo em ações bem sucedidas, com prisão ou morte de bandidos.

Na situação em que se encontra, acredito que a única solução possível para a cidade que pretende ser sede para um evento da envergadura dos jogos olímpicos seja a intervenção maciça do Estado. Os governos estadual e municipal pouco tem feito para mudar esse quadro, atuando apenas em situações isoladas e casos de grande repercussão na mídia. Nesse caso, uma intervenção federal se faz necessária. O uso da Força Nacional de Segurança ou o próprio exército deveriam ser enviados à cidade para agir massivamente na repreensão e prisão dos bandidos e de quem quer que, de alguma forma, os defenda ou acoberte. Ok, nem a Força Nacional nem o exército estão capacitados para atuar em zonas estreitas e cheias de vítimas inocentes - como é o caso das favelas cariocas - mas há treinamentos que podem ser dados pela polícia e exército de Israel, por exemplo, os mais eficientes nesse tipo de atuação. Dinheiro para isso? Garanto que sai muito menos por pessoa do que os R$ 70 mil que foram gastos com um curso de Coaching de três meses realizado na Austrália por um assessor da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, no último ano. E não é necessário enviar todas as tropas, mas apenas alguns oficiais-chave capazes de multiplicar o conhecimento adquirido com os demais.

Mas, para o presidente Lula, sua obrigação com o Rio de Janeiro já está cumprida, afinal ele conseguiu eleger a cidade para sediar os jogos e, como muito provavelmente não será ele a ter de enfrentar essa situação até 2016 e isso é uma medida de efeitos em longo prazo, que não renderá votos nem a ele nem à d. Dilma, é melhor fazer campanha com dinheiro público vistoriar as obras de transposição do rio São Francisco. Aliás, alguém já tinha visto alguma vez na história do Brasil, um ministro-chefe da Casa Civil vistoriar uma obra pública? Eu, não.

30set/090

As armas e o futuro das nossas crianças, até quando andarão juntas?

Agora há noite estava assistindo a um daqueles seriados policiais americanos, e naquele episódio o assunto abordado eram as crianças-soldado de Uganda, a forma como são recrutadas, e o impacto que isso causa no desenvolvimento e na vida deles. Na ficção, conseguem prender e julgar um dos generais desses exércitos. Um dos "recrutas" do programa, já adulto, contava a forma como fora aliciado, as promessas que faziam, de que as armas os fariam sentir poderosos, que poderiam fazer o que quisessem com uma arma nas mãos, que seriam invencíveis. Contou também o que ouvia quando dormia, os gritos das pessoas que ele fizera sofrer desde a infância.

Isso me chamou a atenção e me fez pensar. Sempre vemos e ouvimos histórias desse tipo em países da África, países pobres, do outro lado do oceano, e ficamos perplexos, mas ao mesmo tempo pensamos que o problema está longe, que nada podemos fazer, e que por isso o problema não é nosso. Esquecemos que vivemos a mesma situação hoje no Brasil, embaixo do nosso nariz, nas periferias das grandes cidades, nas cidades menores, e até mesmo do nosso lado. Simplesmente fechamos os olhos, fazemos de tudo para não ver. Assim temos uma falsa sensação de segurança, de que nada está acontecendo, e não irá nos atingir.

Tenho um filho pequeno, e isso é para mim um estímulo a mais para tentar achar uma solução para este problema. A principal solução, sem sombra de dúvidas, é a educação, mas aí paramos em uma série de barreiras que atrapalham a evolução. Primeiro, como podemos convencer nossos governantes de que vale muito mais investir em educação - mesmo que leve muito tempo para surtir efeito e não trará resultados que rendam votos na próxima eleição, mas gera um efeito muito mais duradouro e o tornará um herói nacional - ao invés de investir em obras facilmente apresentáveis, que dão uma meia dúzia de votos nas eleições seguintes, e permitem que continuem no poder fazendo o que bem entendem e lucrem muito com isso? E outra, como convencer nossas crianças a estudar, se os pais muitas vezes não estudaram, os jogadores de futebol que são idolatrados, ou as dançarinas que ficam rebolando na TV e cantando músicas sem ritmo ou uma letra que contém apenas palavrões e erros gramaticais ganham muito mais do que qualquer profissional formado, ou ainda se somos governados por um presidente que nem ao menos terminou o ensino fundamental, e se vangloria disso, fazendo de sua ignorância um troféu?

Tudo isso me faz temer pelo futuro do meu filho, e de toda uma geração que está vindo por aí. Perco o sono tentando imaginar como será quando ele tiver seus 15 anos, se poderei dormir tranquilo sabendo que segui o caminho certo na sua educação ou se terei de passar as noites em claro, temendo que ele seja vítima ou agente desses exércitos mirins que se alastram por toda parte.